estrobo
o desejo é uma luz que pisca muito rápido

matéria-prima do desejo: fascínio. etimologia inventada: vem de faísca. só pode ser, devem ter as mesmas raízes. revela curiosidade. um lapso, um clique, um flash. estrobo da vida. e curiosidade revela, também, medo. o oculto é uma caverna de espelhos, cheia de sombras e reflexos. dois lados de uma mesma moeda, etc. toda a ladainha que já falaram dunker, lacan, freud: a gente tem medo do que a gente deseja. de novo: um estrobo que ilumina por um segundo, quer dizer, menos ainda, um caminho. pupila não acompanha. tem gente que fecha o olho, se cega antes. mas é preciso esperar o próximo, e o próximo, e o próximo. e apenas seguir, incessante, confiante de que uma hora vai encontrar a caixa de som, o dj, o ritmo e a dança nessa síncope. racionalizar, como diria o francês, é uma merda. por que desvendar tudo imediatamente? observar de longe e de perto, se fazer no erótico e ser contra a interpretação, como sontag defendia. sem entender, continuo sentindo. ligação primal com o neandertal. o que não consigo entender é por que a gente dança, e acho a coisa mais linda do mundo. sem função fisiológica alguma, apenas é aquilo e isso: balançar a cabeça no ritmo de qualquer batida. eu acho que toda espécie tem isso. não me dê explicações sobre o motivo que as andorinhas planam sobre piscinas de casas de praia ao pôr do sol durante dezembro e janeiro. rasantes, um após o outro, mergulhinho. dançam juntas, todas elas. é verão e elas também sentem, também querem se divertir, igual criança falando: olha, minha vez. e você precisa olhar, porque é bonito e só isso já basta. um jeito das andorinhas descansar antes de atravessar qualquer oceano que seja, elas daquele tamanhinho. vini uma vez me falou, e eu nunca esqueci: ninguém vai te fazer gozar. você tem que ir atrás do seu tesão.

